Era uma lascívia! Caminhava no passeio como se fosse um ovo de Colombo, equilibrista a caminhar no arame e a assustar os olhos de quem a via. Esticavam-se os braços a tentar impedir-lhe a queda mas, tal como no circo, ela nunca caía.
E os homens, envergonhados, continuavam o seu caminho a pensar naquele ludíbrio, desculpando-se com olhos turvos e palavras de cristal que ela quebrava com o seu mutismo.
Não se lhe ouvia sair uma palavra daquela boca fresca com os lábios tão sem rugas como se só comesse batidos de fruta.
Intrigava-nos.
Quando a víamos caminhar naquele passeio, atrás de nós, deixávamos cair os lenços previamente preparados com essências de olivas tropicais, esperando que ela tropeçasse no engodo, mas, nada... rodopiava em volta deles, curiosa, olhava-nos, com o seu olhar de leite claro sorridente, e, quando nós, entusiamados, nos aproximávamos para reivindicar o deslize, deslizava ela, movimentando os ombros ao ritmo dos seus passos e continuava o seu caminho sem uma palavra que fosse.
E quando, nas reuniões de vanguarda, lhe perguntavam por que era assim, olhava surpreendida encolhendo os ombros como se não percebesse e continuava calada porque tudo o que tinha a dizer dizia-o com o corpo.

Nem sempre os outros entendem tudo o que temos para dizer!;P
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